Brincar aos Céus
Vamos brincar aos céus

Agarramos num céu e abrimo-lo ao meio para reflectirmos.

Depois de tê-lo feito,
invertemo-lo para ver o efeito.

Em seguida
pegamos em dois pedaços de terra e em dois céus,
viramo-los ao contrário e colamo-los numa folha de cartão

de forma

a que cada lado fique rigorosamente encostado ao outro lado
como se fosse a minha mão a acariciar tua mão.

Rimemos então, apaixonadamente, como manda a boa norma,
mas vamos primeiro estudar cada caso em separado:



Nona Versão

(todos os lados colados com o céu por cima)
(todos os lados colados com o céu por cima)

Vejo
duas garrafas repletas de néctar e hidromel
a despejarem Energia num plasma geladamente cruel
para iniciar o Começo de Tudo a partir da negridão do nada,
tarefa ainda em estudo e jamais acabada

porque é muito difícil fazer nascer,
num ano ou num segundo,
toda a Luz necessária para iluminar um Mundo
que, vez após vez, teima em ser de pez!

Mais fácil, porém, é verificar
que a Luz gerada no Céu degenera ao passar na Fera
cujos olhos azuis semicerrados nos fitam já tão perto do chão.

Para tentar reparar a iluminação
decidi atribuir a cada Poder uma Repartição,
a Deus, o Céu, lá em cima ... ao Diabo, o Inferno, lá em baixo,
não quiseram e acho que ambos recusaram este cenário

porque
cada um para seu lado, separados, não poderiam dar origem ao Caos e à Perdição
imprescindíveis à sua existência,

facto que levou Deus a aceitar a Presidência do nosso Calvário,
recrutando imediatamente o Diabo para seu Assistente e Secretário!


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Décima Segunda Versão

(todos os lados colados, terra com terra, abaulado para cima)
(todos os lados colados, terra com terra, abaulado para cima)

Veria a Terra a iluninar-se na beleza do reflexo do Céu
se ele não contivesse a Besta que comanda tudo e que cm tudo manda!

Experimenta olhar bem para cima,
verás o Demo-Soez-dos-Olhos-Azuis-Semicerrados,

em toda a sua grandeza, a dominar a Tcrra,
que de explosão em explosão
e de guerra em guerra foi obrigada, para sua tristeza,

a relegar o Céu que era seu
para o Abismo sinistro e profundo do Submundo!

Por isso, vês em baixo ... bem em baixo ... no fundo da Terra,

a explosão nuclear, o choupal já ardido,
um lamaçal, o deus esquecido e dois canhões a disparar,

resumindo, todo o Mundo de pernas para o ar ...

... e acabo as estrofes das doze estâncias do meu canto
com este forte brado

que o Anjo que era Santo ... seja, hoje, o Anjo Revoltado
e que, lá em cima, o Céu deixe de ser o Templo do Diabo!


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Décima Primeira Versão

(todos os lados colados, terra com terra, abaulado para baixo)
(todos os lados colados, terra com terra, abaulado para baixo)

Vejo a Terra entalada entre o Mal e o Bem!

Em cima, o Céu, num último estertor,
a enviar-nos o Ovo do Cristo Salvador com a Mensagem
que nos salvaria e que separaria a Noite do Dia,

se debaixo da Terra, esperando a sua vez,
não estivessem o Demo-Soez-dos-Olhos-Azuis-Semicerrados,
proprietário de todos os danados,

acompanhado pelo Furão e pela Besta-Cornuda-Castanha-Pequena
que desde petiz lhe compõe o nariz!

Só é pena que, desgraçadamente, Portugal, Europa, Terra
tenha sido o local escolhido para arena
da guerra entre o Bem e o Mal

e que, de antemão, já todos saibamos
o resultado final!


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Décima Versão

(todos os lados colados com o céu por baixo)
(todos os lados colados com o céu por baixo)

Vejo, em cima,
para minha imensa pena,

o Furão Azulado gerado no Céu da Negridão
montado no Bode, a Besta-Cornuda-Castanha-Pequena,

para exercer pressão sobre o Triângulo Divino,
já rendido e virado de pemas para o ar,

para ele, que é masculino - pai, filho e espírito santo -
parir num parto cheio de dor e pranto
o Ovo do Filho que nos iria salvar

(cuja cabeça vislumbro no círculo achatado achegado ao mar)

se o Grande Demo, o Demo Superior,
o Demo Abrangente, o Demo dos Olhos Azuis Semicerrados,
não estivesse já de boca escancarada, dente afiado
a tragar o Divino e o Ovo pequenino,

aliás, da última vez não os tragou,

limitou-se a mandar cantar três vezes o Galo
e, depois, a crucificá-lo!


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Oitava Versão

(terra colada a terra, topo a topo, ao contrário)
(terra colada a terra, topo a topo, ao contrário)

É a Besta, a Fera, com o seu olhar vesgo cerúleo aterrador,
tricórnio azul da sua divindade enterrado na cabeça,
nariz grosso, enorme, disforme, sobrancelhas espessas e boca a exalar fedor

a prepara-se para engolir-nos sem qualquer pressa
pois sabe de antemão que o Deus Bom não nos ajudará a fugir
antes de Impostor nos deglutir!

Desde criança, decora o tricórnio
com maldade, vaidade e intolerância

e é pior do que Cronos ou Saturno de Goya,
deuses da era da Roma Antiga e de Tróia
que engolem, hora a hora, as horas do tempo

e que, infelizmente, a Fera não aproveita para exemplo
pois a sua boca fedorenta escancarada
engole homens e tempo de uma mesma assentada!

Senhor dos fenícios, dos patrícios, dos romanos.
dos ateus, dos judeus, dos iranianos, dos cubanos,
dos italianos, dos ingleses, dos franceses
e, sobretudo, dos portugueses

por que não nos dás um Deus justo e imparcial
que seja, como nós, mortal?


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