Fátima Bastos
Professora-Investigadora Doutoramento em Românicas, poeta e declamadora.
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Perfis possantes e contudo Tão soltos e elegantes Dos cavalos galopando nas areias Das praias míticas da minha infância Nas noites de luar incandescente Tórrido como o sol do meio-dia
Pois nada acalma a lua ruiva de Agosto Nem os cavalos ruivos com cio Que desabridos entram pelo mar
Um par a galopar uma viragem E eis que deslassos se espojam na areia Que as ondas cúpidas vêm banhar E o abraço ofegante dos cavalos ruivos Que copulam na areia escaldante Sob a carícia ardente do luar.
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o Rei Pe(s)cador Ferido jaz Na sua virilidade Em seu leito de agonia O cheiro pútrido Da ferida Todos afasta E o seu reino Sem governo Vai-se transformando Em terra gasta
Inutilmente Dia após dia Três belas donzelas Passam com a taça Que contém a lança Que escorre sangue Para esconjurar o mal E o jovem imberbe Parado absorto Olha sem perceber O estranho ritual
Pergunta sempre adiada Que não permitiu Que o sacrifício de Cristo Servisse de expiação À terra estéril gasta Ah Percival Uma só pergunta tua
Para que serve o Graal Teria permitido Salvar o Reino da Bretanha E o Mundo Ocidental E nem Lancelot nem Galaaz Fizeram descer o Graal Que a terra gasta Poderia salvar E a terra onde vivemos Terra gasta irá continuar
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Sob o céu púrpura Na tarde do dia Que morria O teu olhar Sorria E a minha boca Pedia
Beija-me que tenho pressa Que a felicidade aconteça
E o beijo acontecia Na tarde do dia Que morria
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Inerte jaz na areia suja da praia o esqueleto Do barco onde as gaivotas poisam solitárias Que por longos anos para a dura faina levou Os pescadores em busca de míseros salários
A voz dos temporais sibila entre as traves desnudas Os fantasmas dos que morreram fazem ouvir seus ais Num lamento pelos familiares que deixaram E na sua dor de não os voltar a ver nunca mais
Mas a quilha aponta ainda altiva para o oceano A memória das grandes labutas toma-a altaneira Ou a saudade das grandes viagens ao mar largo É o que resta da antiga glória da velha traineira
Um velho pescador saudoso e amargurado Anda vagueando pela praia como louco (Indiferente à saudade e à dor dos homens A podridão corrói-lhe o casco pouco a pouco)
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No eléctrico Da Boavista para a Foz Percurso trivial Do dia-a-dia Olhando o disco de ouro Sobre o mar
Tive a estranha Revelação pagã Que o Sol Que no ocaso Se fundia Era o mesmo deus De uma antiga Civilização Que com o meu Deus Se confundia
E que a pequena prece Que os meus lábios Murmuraram Era a mesma oração Que esse outro povo Lhe dirigia
Como é bom Ver-te nascer Em cada manhã E no teu ocaso De agonia Encontrar A plenitude De se ter Cumprido Mais outro dia
Sol Deus sol Dá-me ainda Outro amanhã Um novo dia
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