Foto Poemas

Poemas e Fotografias do Autor
a publicar num próximo livro intitulado
"A Anta do Arco-Íris"



Femme immortelle

Femme immortelle
(CEMantique mármore branco 44x31x11 1990)


Dieu,
En se promenant
Aux Jardins du Paradis,
A laissé échapper,
Au milieu d’un sourire,
Un nonchalant soupire

Qui est tombé
Sur une simple pierre
Qui couchée sur le Ciel
Regardait la Terre...

... Et c’est ainsi qu’est née
L’intouchable silhouette
De l’éternelle ... Femme immortelle!

Mais Dieu,
Le faiseur des saints,
N’était pas un ascète
Et il a voulu jouer
Avec cette douce silhouette ...,

... Il a soufflé,
La pierre s’est remplie ...

... Et c’est pourquoi
nous avons maintenant

la matérielle Femme mortel

que aucun Homme oublie!


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Sevilha Sexta-Feira Santa

Andor
 
Procissão

Pés Descalços
Lixo


Sexta-Feira de Paixão, nove da manhã.

Eu, cidadão eleitor de número ilegível - não tenho o cartão comigo - com um tédio muito parecido com o spleen de Lorde Byron, mais modesto de meios, mas habituado a bom tempo, faço equivaler Sevilha ao Cairo e Espanha ao Egipto, e a las cinco de la tarde estaciono o carro mesmo ao pé de um dos principais sítios por onde passam as procissões, no parqueamento do Corte Inglês ao fundo da Calle Sierpes.

Foi preciso ter sorte porque, desde os arrabaldes de Sevilha, todos os espaços estavam já ocupados. Eu não liguei e fui andando, acabando por mergulhar na terra mesmo en su sitio. Olé, um a zero, a meu favor, obviamente com a graça do Divino Espírito Santo e negando o provérbio: "ao menino e ao borracho põe-lhes Deus a mão por baixo". Como não bebo e não me qualificando propriamente como menino deve ter sido a mão por cima.

Sevilha, a exemplo de muitas cidades e vilas do sul de Espanha, cheira a lúcia-lima. O cheiro a lúcia-lima faz-me sempre recordar o livro mais lindo que desde sempre li, O Meu Pé de Laranja Lima e junto a este um outro, Le Petit Prince de St. Exupéry. Cheiro, recordo e fico capaz de sentir o belo.


É ainda dia.

Ruas cheias de gente que se orgulha da sua fé, que se ajoelha e bate palmas ao passar dos andores com Virgens ou Cristos em paixão; nazarenos encapuçados, descalços, calçados, alguns brutalmente calçados que desfilam às centenas antes e depois dos andores; penitentes, uns com cruzes, outros com círios da cor dos hábitos que vestem; andores carregados de velas cada um com a sua Virgem ou com o seu Cristo amargurado, andores pesados, cheios de prata, que esmagam os samaritanos que os carregam; andores de tal peso, que avançam em trepidações miudinhas ganhando em cada uma uns escassos centímetros; sevilhanas que se movem com o garbo da sua casta; de pente e mantilha negra caindo sobre o vestido também negro; gente vestida com o melhor que tem, arranjada, engravatada, tudo por respeito ao Divino; gente com fé que se emociona, o caballerito rico, perfumado, de cabelo preto empastado a acotovelar no físico e nas emoções o campesino de gola aberta, suado e mal cheiroso; tudo isto orquestrado em cadências fixas, imutáveis; são os tambores que comandam, o resto vai atrás deles: música, filarmónicas, nazarenos, penitentes, gente importante, povo e talvez mesmo Deus.

E o colorido de tudo isto? E o colorido misturado com o cheiro a lúcia-lima, com as paixões de Deus e do povo, com a fé, com as lágrimas, com a oração, com toda a esperança que mora na própria expressão de crença e com um fim de dia e princípio de noite serenamente morno e apaziguante!

Não sei como outros reagem, eu sinto-me nu perante mim próprio com um nozito na garganta e com muita, muita paz interior.

Vem a noite e as velas reclamam a sua condição de luz, os coloridos esbatem-se, as sombras acentuam-se, a crença dramatiza-se, os sentimentos aprofundam-se, o Divino austeriza-se, os corpos suam-se, o Inferno separa-se do Céu, mas continua o cheiro a lúcia-lima.


Com a noite,

Nuestro Padre Jesus de la Paz, Nuestro Padre Jesus Cativo, Nuestro Padre de la Vitoria, todos Nuestros Padres ficam mais sofridos, sentem mais a dor da nossa remissão; La Virgen Santissima de la Macarena, La Virgen Santissima de la Paz, La Virgen Santissima de las Aguas, todas Nuestras Virgenes Santissimas escondem menos a sua dor pela morte do Filho, as lágrimas sobressaindo mais nas faces que com a noite se emaciam; os hábitos e os capuchos dos nazarenos perdem o encarnado, púrpura, branco, verde, preto, preto e branco vivos com que enfeitavam o dia e passam a branco, preto ou indefinidamente pardacento, assim como se fossem Céu, Inferno e Purgatório; parece que os andores se tomam mais pesados nos ombros dos samaritanos, seres invisíveis, carregadores das Divindades;

as mantilhas e os vestidos negros das andaluzas confundem-se, não se distingue bem onde acaba a mantilha e começa o vestido; os pés dos penitentes descalços sangram; as criancinhas que vão nas procissões em promessa, ou acção de graças choram e vão mais ao colo do que a pé; as cruzes sobre os ombros dos penitentes assimetrizam-se; o guardia civil que afasta o povo para passar o andor abrutaliza-se com o calor e o cansaço; uma ou outra vez uma señora ou señorita, provável mulher ou filha de um dos mandões da Irmandade, pavoneia-se para trás e para a frente em qualquer tarefa cuja utilidade não se vislumbra;

ao mandão, debaixo do hábito e do capucho, não se lhe vê a cara, vê-se-Ihe a mão, o anel de ricaço e a vara em prata que empunha; todas as mãos de mandões são mãos de velho, daí talvez a razão porque quanto mais tarde vai a noite mais os pés se lhes arrastam, as barrigas lhes saem e as costas se lhes encurvam; também um ou outro samaritano com o seu lenço branco posto à Samaria sai transpirado debaixo do andor e vai beber ao tasco mais próximo o copo da retemperança;

distinguem-se menos as diferenças entre señorito e operário, señora e empregada de balcão, patroa e criada, traje sevilhano e mini-saia, tudo tende a nivelar-se com a noite e o cansaço, tanto dói o pé da senhora bem calçada que não está habituada a andar como o da criada andarilha com sapato novo.

Ou talvez sejam os meus olhos que nivelam, não sei!

Tudo com cheiro a lúcia-lima, meu pé de laranja lima e principezinho.


Sábado de Aleluia, 4 da manhã.

As procissões recolhem às igrejas respectivas e o povo debanda em rios de largo caudal que não convém contrariar. Não se morreria afogado, mas sim calcado. É uma massa bruta que sai cega das cercanias da Catedral e da Giralda empurrando, esbracejando, tropeçando, batendo nos poucos carros estacionados, quase correndo, quando não correndo mesmo, é o milagre da divisão do colectivo no ínfimo individual, o homem unidade.

A las 4 de la mañana o homem unidade deita fora o Eterno e só quer chegar depressa a casa.

Ficam as ruas mijadas, vomitadas, cagadas, cheias de papéis, plásticos, latas amolgadas de Pepsi, Fanfa, Cola e outras, cadeiras desalinhadas e viradas, um preservativo já usado, grades de ferro que servem para diferenciar o povo caídas no chão, o povo que limpa a merda que o outro povo faz, e eu.

A mim só me fez confusão o que é que o preservativo estava ali a fazer!

Mulheres três, todas polícias. O resto só homens, porcaria e cheiro a urinol.

Pegam numa cadeira, desmancham-na, carregam-na, empilham-na, vão buscar outra cadeira, desmancham-na, carregam-na, empilham-na, vão buscar uma cadeira mais, desmancham-na, carregam-na, empilham-na, metodicamente, monotonamente, de cara fechada como se estivessem ainda a ser regidos pelos tambores da procissão.

Agarram nas grades e empilham-nas. Varrem a porcaria e espalham o mijo que com umas mangueiradas vai parar ao Guadalquivir.

Vão para casa cansados, suados, lixados na certeza de que amanhã vão fazer o mesmo.

Eu fui à procura do cheiro a lúcia-lima noutra rua.


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A Quadratura da Vaca

A Quadratura da Vaca

A puxar pela inspiração

vêe-me à cabeça a situação de uma vaca mal parida
depois de ser bem mugida:

    muge, muge e não sai nada,
    uma desgraça acabada!

Para ver se vinha lête (rima minha, tê delête)
e não falhar alguma teta apliquê-lhe a recêta
de a mim mêsme perguntar:

    quantas tetas tem a vaca
    antes de ir parar à faca!

    Duas, Três?

Enciclopédia, dicionário,
mas só o veterinário me esclareceu desta vez:

    quatro tetas tem a vaca
    antes de ir parar à faca!

Como só mugira três, logo esguichê a quarta!

Estava chêa que se farta, começou logo a dar lête

e foi para tê delête e de toda a criatura
que lês-te, de fie a pavie, este conte algarvie

    da faca

       e da qaudratura da vaca


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Asas Que Voam No Chão

Asas Que Voam No Chão

Asas que voam no chão
criação do ilusionista
que do nada faz asas, a perder de vista,

asas de imaginação que não saem do chão
mas parecem voar

como tudo mais na vida

que nos é tão querida
e que está a acabar!


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Panda

Panda

Fui ao Zoo de Berlim ver o panda
branco e preto.

Não divulgarei nenhtun segredo
dizendo que o bicho
passa a vida deitado de costas

comendo folhinhas de bambu
dadas pelo tratador.

Inquiro-me
porque tu, meu amor.
não me tratas assim.

não te custaria muito
e seria óptimo para mim!


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