Foto Poemas

Poemas e Fotografias do Autor
a publicar num próximo livro intitulado
"A Anta do Arco-Íris"



Fernão, Capelo, Gaivota

Fernão Capelo Gaivota

"Fernão Capelo Gaivota",
história da minha infância e da minha geração,
contigo fundimos o gelo que tínhamos no coração...

...também com o "Principezinho", de Saint Exupery,
mas foi já bem aconchegado em ti, Gaivota, que tantas vezes o li...

...e por se tratar de coração chamo ainda à colação
a Condessa de Ségur e "E depois da Tempestade, a Bonança"
que nos doutoraram em amor e perdão na Faculdade da Esperança
e "O meu Pé de Laranja Lima" ao qual devo o ameno clima da minha compreensão!

Meu Fernão que eras Gaivota doutorada com Capelo,
chega agora a tua hora de rogar nosso perdão!

Estás cheio de desmazelo ... penso em ti ... vem-me à memória
aquela barca da história em que o meu povo sempre embarca ...
... a barca que, para ganhar tempo, vai de derrota em derrota
aproada ao nevoeiro...

... contigo, Fernão Gaivota, a servir de timoneiro!

Ufaneiro, pavoneias-te na gávea real,
tão sobranceiro como já foi Portugal

e de derrota em derrota,
tu, ave que não come, mas arrota,

cantas muitos feitos e obras...

... mas quanto a sustento ... só sobras!


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É quase meia noite

É quase meia noite

É quase meia noite, hora em que os homens que buscam a Harmonia
acabam os trabalhos iniciados ao meio dia.

Sempre discreto ... também aqui estou,
disfarçado na pedra que vês a polir-se no doce afago das águas do lago.

Pés bem assentes na minha querida terra, odeio a guerra e não sou ateu,

gosto muito do deus que Deus me deu e aceito, de antemão,
que o Teu Deus é tão bom ou melhor do que o meu.

Na minha oficina tenho a boa sina de ser meu trabalho alisar a Pedra Bruta
e deitar fora o cascalho.

Sendo o Tempo meu companheiro, não acelero nem lhe dou luta,
o tempo perfeito só é perfeito por ter sido feito ...
... e nele me aninho ...

Vês, também, no meio do meu caminho as quatro árvores
que sempre que anseio me servem de esteio:

a mais grossa ... a árvore da Força; mais velha ... a da Sabedoria; da Beleza ... a mais esguia
e, a quarta ... a da Divindade invisível que me protege o futuro e apaga a saudade ...

Eis chegada a meia noite ...

... peço ao Grande Arquitecto que te proteja tecto e de todos os teus,

digo-te adeus, até amanhã e vou descansar

para amanhã, no fim da manhã, bem no pino do dia,
repleto de Força, Beleza e Alegria ... estar outra vez ao teu lado a trabalhar!


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Ministeriável

Ministriavel

O Senhor que vês neste retrato está em Roma, é romano,
e não é português!

Ganha a vida com a sua pasta, imóvel, a fazer de estátua
como outros, em Lisboa, que também não mexem, se pintam de branco
e que, por não saberem o que é escola, pedem esmola
na Rua Augusta à porta de um Banco!

Vê lá tu,

que, na zona das Ramblas, em plena Barcelona,
já vi um homem todo nu a pintar-se de bronze para fazer de cowboy
ao lado doutro pintado de verde que parecia mesmo galopar um boi...
... mais à frente um cinzento, parado, cabelo esturricado a fazer de mecânico!

Porém, nunca vi nenhum tão dinâmico como o homem do nosso retrato
que não produz... e está imóvel, parado... colado ao chão

e que nos induz
a vê-lo a andar, de pasta na mão, como se fosse a jacto,
passo estugado, cabelos e cachecol ao vento
para produzir riqueza e prover sustento ...

... igualzinho àquele Ministro que é meu vizinho,
por sua vez igualzinho aos seus colegas que todos os dias
estão parados, não produzem e nos alindam o texto

pelo menos desde o tempo do Marquês de Pombal, D. José,
ou talvez de D. João Sexto!


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Cruzeiro

Cruzeiro

Cruzeiro,

que, em pé, sobranceiro,
encomendaste nevoeiro para me esconder

o prazer, o cio, o rio, o vale ... o que vale e o que não vale ... o que é e o que realmente não é...
a fonte, o horizonte, o vinho, o lagar, o mar ... o perigo de em ti acreditar...
a mulher, o saber, o carinho, o céu, a tiara, o trigo, a seara...
o que é teu e o que é meu,

um triste jardim com o som
do fim do meu destino a esvair-se no último badalar do sino,

e também,
o único verdadeiro e derradeiro amor que mantenho... o da minha falecida mãe!

E é assim, sem nada conhecer,
que me arrasto para ti, Cruzeiro, neste meu Gólgota triste
na esperança remota de salvar-me e ao que de bom ainda em mim existe...

Mas, uma vez chegado e ajoelhado a teus pés,

assaltaste-me, impiedoso, com as mais de mil marés do mar de pecados por ti inventados
para engrossarem, dias a fio, o caudal do rio, que já era quase sem água, da minha eterna e imensa mágoa!

Cruzeiro
assassino,

símbolo da cruz
que crucificou Jesus,

não nos olhes tifo sobranceiro,
roja-te no chão ... e pede-nos perdão!


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Á sua imagem e semelhança

A sua imagem e semelhança

Se Deus que me criou
se antecipasse
e perguntasse

a forma
em que queria ser moldado,

diria que,

na terra da guerra
e da criança sem carinho,

preferia ser prensado

à imagem e semelhança

do golfinho!


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